> nasi > rua augusta > putas e moderninhos de plantão > plano-sequência > escultura de ordem > o cansado entusiasmo > o sincronismo > balé quebrado > tudo acaba em cachaça

outubro 13, 2007

Um dia pegamos o Nasi (que eu, aliás, odeio quando chamam de Wolverine do rock) e fomos gravar uma cena num cartório em plena rua Augusta. Era quinta-feira, a noite começava daquele jeito de sempre, as putas subindo a rua, os moderninhos descendo, enchendo os barzinhos e os puteiros da vida. Nossa equipe encontrava-se, horas antes, em Santo André, com o mesmo Nasi já citado, gravando uma cena estressante e cansativa. Mesmo assim, Tiaraju, o diretor, que é brasileiro e não desiste nunca, resolveu não cancelar as gravações.Apesar de tudo, estávamos entusiasmados. Seria uma cena difícil, um plano-sequência que, inicialmente, calculamos que duraria, no máximo, uns 10 ou 12 minutos. A locação, o tal cartório, era perfeito, com enormes arquivos empilhados simetricamente por todas as paredes, lindas luzes fluorescentes e muitas escrivaninhas. Uma escultura de ordem.

Todos empolgados, cansados, mas empolgados. Tiaraju tentava manter o ânimo da galera enquanto fazia a marcação de cena com Vaner, o fotógrafo. Em pouco mais de uma hora a cena estava toda pronta, marcada, os microfones a postos. Nasi chega ao cartório e a equipe passa a cena com ele, coreografando os movimentos do microfonista, do ator, do câmera e de uma improvisada dolly, construída por Nill Santos, o McGyver de Carapicuíba (dê-lhe um chiclé e ele move o mundo). Nasi, corajosamente, quis gravar logo de cara, sem passar a cena. Ótimo. Primeiro plano: 18 minutos, sem sair de cima. Segundo plano: incríveis 18 minutos, novamente (essencial, meu caro Vandré!). O terceiro durou 19 minutos, quase a mesma coisa. E nem mesmo preparamos a cena ou matamo-nos com exaustivos ensaios. De uma certa maneira, a cena se auto-dirigiu (espero que o diretor não se ofenda com isso, mas ele provavelmente entenderá o que eu quero dizer). Foram feitos os três planos e todos acharam que estava bom. Nasi se vai e nós, entre putas e moderninhos, sentamos num bar da moda (sic) e bebemos cachaça.

Conversamos sobre a cena, espantados com seu tempo de duração. Estávamos otimistas, mas logo esquecemos de nós mesmos e demos atenção a Stella, produtora, que tinha acabado de desperdiçar seu aniversário entre locações distantes, planilhas de direção, fitas, claquetes, encheções de saco, comida ruim, salgadinhos, cigarros, litros e litros de coca-cola. O humor, porém, mantinha-se bom, inalterado. Demos os parabéns a Stella, embriagamo-nos e fomos cada um para suas respectivas casas. Tínhamos o dia seguinte pela frente.

Como todo mundo, aliás.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: